A proliferação de cartazes de eventos gerados por IA, vistos em redes sociais e quadros de avisos pelo Reino Unido, levantou um incômodo recorrente: a mesmice visual. O fenômeno, documentado por postagens virais no Facebook e analisado pela imprensa britânica, expõe como ferramentas como ChatGPT e Midjourney tendem a entregar o mesmo template de “festa artesanal” — mesmo quando os eventos são totalmente distintos.
O problema da repetição
O artigo de John Hartnup parte de um caso real: uma colagem de cartazes idênticos para feiras de bairro, todos criados por IA, circulou amplamente online. O desconforto não vem da baixa qualidade técnica, mas da uniformidade — banners que poderiam ser trocados entre si sem que ninguém notasse a diferença. O Independent, em matéria recente, traça o mesmo diagnóstico: a estética “padrão IA” já virou piada entre designers e virou alvo fácil para críticas sobre automação sem criatividade (Independent).
O que explica essa convergência? Hartnup sugere que o padrão se impõe porque a maioria dos prompts é vaga — “faça um cartaz para uma feira de primavera” — e os modelos recorrem ao que mais viram nos dados de treinamento: pastel, florais, tipografia manuscrita, bandeirolas. O resultado é um produto “ok”, mas esquecível.
Testando a variedade: o que a IA pode entregar
Hartnup decidiu desafiar o padrão. Usou o ChatGPT para gerar versões alternativas de um cartaz de feira, pedindo explicitamente que evitasse o visual típico. O primeiro resultado, mesmo com direcionamento, ainda caiu no template “artesanal”. Mas ao insistir por uma estética completamente diferente, o modelo apresentou uma solução inspirada no Bauhaus/moderno geométrico: formas básicas, tipografia forte, cores primárias e ausência de enfeites supérfluos. O cartaz imediatamente se destacou do mar de clones.
O autor foi além e pediu ao ChatGPT sugestões de estilos para cartazes. O modelo listou mais de dez abordagens concretas, de Swiss Style (grade rígida, preto e branco) a risograph, colagem à la Matisse, brutalismo, flyers de rave anos 90, minimalismo japonês e até layouts de sinalização pública. A oferta surpreendeu: a IA é capaz de entregar uma paleta quase infinita, desde que orientada com precisão.
Prompting é design: a responsabilidade do humano
O caso revela que, no design assistido por IA, o prompt é quase tão importante quanto o briefing para um designer humano. Pedidos genéricos alimentam o “modo seguro” dos modelos, que devolvem o que sabem ser socialmente aceito e amplamente visto — o que, em design gráfico, significa previsibilidade. Já comandos específicos, que nomeiam estilos, referências e restrições (“sem pastel, sem florais, use Bauhaus”), forçam o modelo a buscar alternativas menos exploradas.
A função do usuário, portanto, não é simplesmente terceirizar a criatividade, mas atuar como curador e diretor de arte. A IA se adapta rapidamente ao repertório sugerido, mas dificilmente irá inovar sem provocação consciente.
Por que isso importa
Para quem organiza eventos, campanhas ou mesmo pequenas ações locais, depender do “template padrão IA” é receita para o anonimato. O potencial dos modelos generativos está em multiplicar possibilidades visuais, não em reduzi-las a um só clichê. Entender como orientar a IA — seja ChatGPT, Midjourney ou qualquer outra — é hoje uma competência essencial para fugir da saturação e criar comunicação que realmente se destaque.
A lição é clara: criatividade com IA não é automática, mas dirigida. O diferencial não está no modelo, mas na intenção e clareza de quem pede.