A Interpol divulgou, em 4 de agosto de 2026, o African Cyberthreat Assessment Report 2026, apontando que a inteligência artificial já está presente em mais da metade dos crimes cibernéticos registrados no continente africano. O relatório, baseado em dados de 36 países, revela que 55% dos casos de cibercrime analisados envolveram o uso de IA, evidenciando a rápida evolução e sofisticação das táticas criminosas na região.

Escalada dos golpes digitais

O estudo indica que golpes online continuam sendo a principal ameaça cibernética na África. Em 2025, criminosos intensificaram o uso de IA combinada com redes sociais e serviços de dinheiro móvel para enganar vítimas em escala. As perdas financeiras decorrentes de crimes cibernéticos saltaram de US$ 192 milhões em 2024 para US$ 484 milhões em 2025, segundo a Interpol. O aumento é atribuído ao uso de IA em fraudes, roubo de credenciais e ataques avançados de engenharia social.

O relatório aponta que 72% dos países pesquisados identificaram centros de golpes operando internamente, com maior concentração no Oeste e Sul do continente. Em regiões como a África Oriental, fraudes via dinheiro móvel e ataques de ransomware contra infraestrutura crítica são destaque. Já o Oeste e Centro da África enfrentam altos índices de comprometimento de e-mails corporativos (BEC) e golpes de romance. No Sul, a conectividade digital avançada torna a região alvo de redes internacionais de cibercriminosos.

IA como catalisador dos ataques

A Interpol alerta para o papel transformador da IA nas operações criminosas. Tecnologias como deepfakes e geração automática de conteúdo estão sendo usadas em extorsão digital e campanhas de assédio online. Segundo a TrendAI, parceira da Interpol, cerca de 600 mil casos de sextorsão digital foram detectados associando IA a esses métodos.

Os ataques de BEC também cresceram, com criminosos utilizando IA para criar e-mails falsos altamente realistas. Grupos baseados na África expandem suas operações para Europa e América do Norte, utilizando infraestrutura distribuída para camuflar atividades. Outra preocupação crescente é o uso de identidades sintéticas: dados reais combinados a informações falsas para criar perfis digitais capazes de burlar sistemas de autenticação biométrica e acessar serviços financeiros.

Desafios de coordenação e resposta

A falta de integração entre bancos, operadoras de telecomunicação e autoridades policiais dificulta o combate ao cibercrime. A ausência de compartilhamento em tempo real de dados permite que criminosos movimentem fundos rapidamente e explorem vulnerabilidades entre diferentes jurisdições. O relatório ressalta que muitas agências de segurança africanas ainda não estão equipadas para lidar com ameaças cibernéticas potencializadas por IA.

Iniciativas e operações contra o cibercrime

Apesar do cenário preocupante, o relatório destaca avanços. Em 2025, 17 países africanos atualizaram ou criaram legislações específicas para cibercrime. Senegal, por exemplo, lançou uma plataforma online para denúncias envolvendo crianças. Operações internacionais coordenadas pela Interpol — como Serengeti 2.0, Contender 3.0, Sentinel e Red Card 2.0 — resultaram em mais de 1.500 prisões, apreensão de centenas de dispositivos e recuperação de mais de US$ 100 milhões.

Por que importa

O avanço da IA no cibercrime africano evidencia como tecnologias emergentes podem ser rapidamente apropriadas por redes criminosas, especialmente em regiões com rápida digitalização e infraestrutura desigual. O caso africano serve de alerta global: sem integração entre setores público e privado, e sem preparo técnico das autoridades, a sofisticação dos ataques tende a superar as defesas. O relatório da Interpol reforça a necessidade de cooperação internacional e atualização constante de políticas para enfrentar ameaças que evoluem em ritmo acelerado.

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