A OpenAI divulgou em 27 de julho de 2026 o relatório Work at the Frontier: How AI is Expanding What People Do at Work, inaugurando uma nova série de estudos que analisa, com base em dados reais, como a adoção de IA está modificando a divisão de tarefas no ambiente profissional. O levantamento se baseou em mais de 800 mil mensagens de usuários norte-americanos do ChatGPT, buscando mapear o fenômeno que chamam de task crossover: tarefas tradicionalmente restritas a uma profissão sendo realizadas por pessoas de outras áreas, mediadas pelo uso do modelo de IA.
Task crossover: o que os dados mostram
Segundo a OpenAI, 43,5% das mensagens analisadas envolvendo tarefas ocupacionais específicas diziam respeito a atividades fora da ocupação original do usuário. Ou seja, quase metade dos usos ocupacionais da IA já reflete uma transferência de funções entre diferentes papéis profissionais. O efeito é ainda mais acentuado em áreas como atendimento ao cliente (77%), design (75%), recursos humanos (69%), jurídico (56%) e marketing (53%).
O relatório detalha que tarefas como cálculos financeiros, produção de materiais de marketing e troubleshooting técnico aparecem com frequência relevante em conversas de usuários fora dessas profissões, indicando que a IA está reduzindo barreiras para que trabalhadores assumam atividades que antes exigiriam repasse a outros departamentos.
Marketing e engenharia: funções que mais “viajam”
A análise por tipo de tarefa revela que atividades de marketing e engenharia são as que mais “transitam” entre ocupações. Por exemplo, tarefas de marketing aparecem em 8,9% das mensagens de profissionais de outras áreas, o maior percentual entre as funções analisadas. Já tarefas de engenharia, como troubleshooting de software, são recorrentes em demandas de não engenheiros, mostrando a influência transversal dessas competências técnicas quando acessíveis via IA.
Pequenas empresas: divisão de trabalho ainda mais flexível
O estudo aponta que o fenômeno do task crossover é mais intenso em pequenas empresas. Em equipes com 2 a 5 pessoas, 18,9% das tarefas analisadas via ChatGPT são de outras ocupações, sugerindo que a IA amplifica a tendência natural dessas organizações à multifuncionalidade. A ausência de times especializados e a necessidade de resolver demandas rapidamente aumentam a propensão de um mesmo colaborador assumir tarefas diversas com apoio do modelo.
Implicações para o mercado brasileiro
Embora o relatório se concentre em dados dos EUA, o padrão identificado é relevante para o contexto brasileiro, onde pequenas e médias empresas predominam e a especialização de funções é frequentemente limitada por orçamento ou acesso a talentos. O uso de IA, como o ChatGPT, pode acelerar a diluição das fronteiras tradicionais de cargos, tornando profissionais mais autônomos e exigindo novos critérios para qualificação e gestão.
A publicação da série Work at the Frontier sinaliza uma mudança de foco: da discussão sobre substituição de empregos para uma análise estruturada de como funções se reorganizam na prática. O dado de 43% de crossover serve de alerta para empresas e profissionais que ainda tratam IA como ferramenta restrita a automação — seu impacto real está na redistribuição dinâmica de tarefas entre áreas, com potencial de alterar rotinas, processos e até estruturas hierárquicas.